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28 dez. 2012, sex. (105)
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Devaneios do inverno de uma poetisa amadora
Ao som da chuva e do canto que a solidão entoava na sala em penumbra, quando a única fonte de luz era o fogo da lareira, lembrou-se dele; de como sentia ciúmes até da chuva que molhava sua pele, do vento que tocava seus cabelos e da lua cheia com a qual ele conversava nas noites ermas. Mergulhou nas memórias, que passavam em flashes rápidos e descontínuos. Criaturas estranhas eram aquelas, os apaixonados. Choravam as lágrimas presas na garganta e riam o riso mais sincero através da cintilância de um olhar. Conseguiam ouvir a barulheira do silêncio um do outro. E mesmo entre tantos dualismos, entendiam-se.
Percebeu que paixões eram como estações. Algumas eram verão: luminosas, cálidas e enérgicas. Outras, assim como as árvores de outono, acabavam por desfolhar-se. Havia aquelas que, por sua intensidade, lembravam o inverno. Outras pareciam desenvolver-se na primavera: eram jardins de flores raras, sempre prontas para florir. Entretanto, o que fazia das estações uma harmonia perfeita? O fato de elas sucederem-se, combinarem-se, completarem-se. Da mesma forma, o que fazia de uma paixão a harmonia perfeita? O conjunto: o ardor do verão, que se prolongaria até ser aplacado pela gélida ventania hibernal; o desfolhar humilde do outono que, definhando em silêncio, esperaria até a primavera para ver o florescer das árvores novamente; a inexorabilidade do inverno, cujos ventos levariam embora as folhas outonais restantes espalhadas pelo chão; e por fim, a renascença primaveril.
O ciclo algumas vezes, sim, interrompia-se. Presenciar a partida de um amor era como ver fumaça esvair-se no ar: a atmosfera fazia-se gris, embaçando a visão, mas não havia nada que pudesse ser feito para deter a fumaça nos dedos. O vento a levava, mas dela, algo sempre ficaria: o cheiro. Cada paixão que passava, deixava o odor da fumaça de sua partida imbuído na roupa. E esses cheiros, através do tempo, iam-se misturando ao seu próprio.
O chocolate quente acabara, interrompendo sua correnteza fluente de pensamentos. Era inverno, o vento soprava frio lá fora. Questão para um agasalho resolver. A lareira continuava acesa, mas uma implacável ventania esfriava seu coração. Essa só um abraço – o dele – poderia sanar. Era inverno, sim, mas tinha que continuar enfrentando aquele desfolhar de outono…
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7 set. 2012, sex. (1242)
"Que a ternura do amor não sufoque a falta de pudor da paixão. Que os dois sejam como água e fogo. E que a água alague e o fogo incendeie. Que um seja dono do outro, inclusos na liberdade de poder ser o que se é; e, sabendo ainda, que ninguém é de ninguém. Que não se enforquem com palavras ocas de significado, o qual termina na ação, não na junção das sílabas. Que a conversa seja de corpo, alma, coração e pensamento. Que cada dia seja um dia de descobertas, e que o mistério não se perca, mas que não haja segredos. Que a dúvida ceda à certeza das respostas vindas de um único toque. Que parem o tempo, ainda que os ponteiros do relógio insistam em mudar de lugar; que aproveitem a eternidade de um segundo. Que se afoguem um no outro e aprendam a respirar debaixo da água. E que seja. Que seja sem querer, de propósito, pensado, surpresa, acidente, coincidência, mas que seja; que sejam. Por partes não, tem de ser por completo. Inteiro, limpo e certo. Tudo, nada, tudo e nada; oito ou oitenta, oitenta e oito também; uma mistura indecifrável de incongruências – que têm lá sua lógica."
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17 jul. 2012, ter. (806)
"Hoje decidi escrever sem rascunhos, mesmo sabendo ser agora o coração um mar de reticências. E se eu tenho que fazer uma escolha, escolho o silêncio. Amor não se anuncia aos quatro ventos, se sente. E da dor de amar fica a certeza de que se há reciprocidade, deve-se permitir o vôo, porque ele nunca será pra muito longe; até porque o amor é um sacrifício, não uma devoção. E mesmo que o vazio marque presença e que o caminho a seguir seja de incostâncias, mesmo que não haja avisos ou explicações… que dor bonita de se sentir. Eu não a quero, mas eu a quero. Qual é o limite entre um mundo de hesitações e um mundo onde tenho a certeza de saber exatamente o meu lugar?"
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2 jul. 2012, seg. (1043)
"Sobre amadurecer… quem disse que é uma questão de escolha? No decorrer do processo aprendemos que forte mesmo é quem admite sua própria fraqueza. Quantas vezes nos exigiram que fôssemos os melhores? Mas quantas vezes esqueceram-se de que mais importante que ser o melhor é dar o melhor de si? Por que não entender que não necessariamente ser campeão significa ter vencido? E por que não notar tantos campeões que vivem ao nosso lado sem prêmios, medalhas ou honras?"
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20 jun. 2012, qua. (390)
"Ser é assim: mudar. Compor, tijolo por tijolo, a nossa obra-pessoa. E jamais dá-la por terminada. Porque o terminado não é lar de mistério, cai no esquecimento. Mas o que está em construção é lembrado, mudado e aperfeiçoado. Construir-nos é aceitar os erros de cálculo e derrubar uma laje… ou todo o edifício. Erguer tudo de novo, a partir de um modelo diferente, restando apenas a fundação. Refazer. Porque — que não nos enganemos — nunca vai estar pronto. O reflexo na água pode ser contemplado, mas nunca tocado."
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12 Maio 2012, sáb. (547)
"Morre a paixão, nasce um novo encanto. Morre o encanto e nasce mais razão. A razão morre de tanto se questionar. Nasce a loucura e morre a sanidade. Nasce a sanidade dentro da loucura. Morre o intenso, nasce o brando. O brando é chato, nasce emoção. Emoção cansa, nasce calma. Calma entedia, nasce euforia. Euforia é perigosa, nasce cautela. Mas cautela prende, morrem os freios. Nasce a descida, no final se estrumbica. Morre o coração, nasce reflexão. O coração ressuscita, nascem decepções. Morre confiança. Quanta matança! Nasce chuva, morre sol. Nasce brisa, morre tempestade. Eita tempo doido de aguentar. Venta, venta todo dia dentro da gente. Depois o vento morre, mas aí fica abafado. Vem a brisa, mas não é suficiente. Morre a confissão, nasce o silêncio. Lê a palavra, nasce a ideia. Morre o código pra nascer a poesia. Deixa nascer, deixa morrer. Morre dentro de si mesmo. Depois renasce. E morre de novo. Nasce, novo. Porque isso é viver: nascer e morrer, enquanto ainda se está vivo."
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7 abr. 2012, sáb. (1572)
"O mundo estava errado quando nos fez acreditar que adulto é aquele que deixou de ser criança. A gramática mentiu quando disse que criança e adulto são palavras antônimas. Ser adulto não é deixar para trás a inocência, a docilidade, a fragilidade e a inconsequência de uma criança; e, sobretudo, não é abandonar a brincadeira boba e o riso fácil. A diferença é que quando tínhamos sete anos, éramos crianças em tempo integral, e agora, somos crianças quando nos é permitido pela razão… seja ela da cabeça ou — por que não? — do coração."
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23 fev. 2012, qui. (666)
"O silêncio nunca foi a questão.
Existe mesmo silêncio quieto?
O que incomoda são as palavras que ele abafa."
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19 fev. 2012, dom. (1494)
"O que é felicidade? Para alguns, ela tem preço, forma, cor e textura. Para outros, rosto, nome e endereço. A verdade é que ser feliz é muito mais interno que externo; é tão simples e palpável que a gente complica. A felicidade pode esconder-se por trás de um sorriso sincero ou aconchegar-se dentro de um abraço. Pode escorrer pelos olhos ao matar uma grande saudade. Pode revelar-se na graça da conversa com aquele amigo bobo. Pode estar no prazer de ler uma boa história ou mergulhar num oceno de conhecimento. Felicidade não é artigo, é poesia. É saber estabelecer valores. É abraço quentinho na cama, mas também pode ser sair casa afora e tomar um belo banho de chuva. Exercício da virtude e não da posse, como já dizia Aristóteles. O que te faz feliz?"
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20 jan. 2012, sex. (84)
"Sabia que os verbos tinham de virar passado, afinal a própria vida se encarregaria disso. Não era com os tempos no passado a preocupação. Era com aquele bocado de verbos não conjugados."
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10 dez. 2011, sáb. (59)
"Crises de inspiração só têm aqueles que não deixam o papel em branco recitar-lhes alguns versos. A inspiração não obedece a nenhum domínio, nós é que somos vítimas dela. Por isso você é perigoso pra mim."
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27 nov. 2011, dom. (85)
"Os olhos, apesar de negros, revelavam estranha limpidez. O quê de mistério daquele olhar inclinado laçava qualquer um que o ousasse fitar. “Encarar pode ser tão perigoso”, pensou consigo mesma. Mergulhar dentro de um olhar e terminar afogado. Dar de cara com monstros contra os quais não se sabe lutar. Achar peças misturadas de um quebra-cabeça sem fim. Ou, na pior das hipóteses — a mais traiçoeira delas —, encontrar flores… e deixar-se enfeitiçar pelo perfume."
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8 nov. 2011, ter. (68)
"Um entender que faz-se num emaranhado de desentendimentos. Sentir é assim. Ou será uma desculpa de quem não consegue decifrar seus próprios enigmas? Impressionante como pudemos ser quase amantes. Quase amores. Quase tudo e quase nada. Sempre assim: quase."